sábado, 31 de agosto de 2013

Você


Um cosmos
Um universo
Composto
De matéria
E energia,
Ordenado
Segundo
As leis que o criou.

Toda essa solidez
De impressionante
Construção imponente
Instala-se a identidade
E a diferença do que somos
Praticamente uma engrenagem
Da mesma máquina
Da órbita de nossas consciências
Correspondendo às exigências revolucionárias
Da vigência das palavras
Parcimoniosamente imposta pelo silêncio
Da manhã que se inclina
Desvelando o princípio
Se esvaindo a vitalidade
Recorrendo ao gênio inventivo
(Re)Criei você pra mim.



José Lima Dias Júnior  — 31.08.2013

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Retalhos de silêncio


Os fios que tecem a trama
Entrelaçam-se e amarram
Às pretensões e desejos
De uma onipotência
Cada vez mais representada
Pulando a própria sombra
Da opacidade sem limites
Subtraindo toda realidade.

O ato recolhe um modo de ser
Extraordinário de sentir
E escutar o silêncio
Enviando remissões
Na medida em que retrai
Um horizonte de doação
Que exige que nos contentemos
A partir de seu nada
A partir de sua ausência
Com o tempo ocupado
Somos colhidos
Para a embriaguez
Que se entrega
Ao inesperado, ao imprevisível.

Com o respectivo silêncio
E o pensamento a escutar
Sem espessura
Na ausência da fala
Que se cala cheia de sentimentos
Vibra e vive neste calar-se
Entrelaça a morte
No tecido da existência humana
Sem negar a si mesmo
A terra,
O mundo,
Os homens,
O nada...

Será o silêncio
A nossa única saída?
Acervo de palavras e imagens
Apela para outras palavras
Temporais e gestuais que
Vive e morre a cada instante.



José Lima Dias Júnior  — 30.08.2013

O grande teatro humano


Transparece no curso do tempo
O pensamento
As palavras
Os dias
As vidas
Separadas em realidades muito distintas
Encontram eco no homem inacabado
A volta de Ulisses para casa
Uma grande cruzada
As tragédias gregas
A construção de um novo homem
O anticristo tão decantado por Nietzsche
Lançando novos olhares sobre velhas coisas
Um novo homem — “super-homem.”

Livre das promessas celestiais
Dos valores cristãos
Este novo ser que transforma
Definitivamente o curso da humanidade acena para o futuro.

O homem enfermo
Preso as suas dores e contradições
Lidando com suas indigências — Nega a vida
Traz na memória os dilemas humanos,
O abandono dos dias que neles vive.

Recusamos nossas vidas para viver alheio ao nada
Os silogismos morais encaixando-se nas relações pessoais
Um caminho percorrido entre romances e contos
Que se deixa revelar em seus personagens o mundo que criamos
Manifestando-se as vozes dos narradores de nossas obras.

Microcosmos humanos
Descrevem um caráter perverso tingido pelo cinismo
Aquilo que é inaudito não pode ser execrável.
Ao esconder sua próprias hipocrisia
O homem reabilita sua dor desvendando o espírito humano.

Teu lado dionisíaco mostra a frugalidade e o regaço das almas livres.
Mas, acorrentados aos valores morais os homens parecem definhar
Diante da realidade que criaram.

Onde está a verdade?
Será que ela é indizível?

A verdade se torna visível quando colocamos a racionalidade como
Principal elemento do conhecimento.
O tormento de Zaratustra quando foi tentado pelos sentimentos cristãos — armadilhas de almas mórbidas.
Agora, recolho os despojos da guerra que não causei quando havia me tornado um mendigo.
Assolado por uma força que lhe sobrepõe, o ingênuo homem vive na pele todos os valores que ele criou.
Toma emprestado do tempo um abraço de despedida
Um passeio público, uma relógio, uma vida... Coisas de criança
Que na figura do demiurgo era trazida aos homens qualquer coisa existente.
Nesse grande teatro — a vida
Discorre por sobre o tempo
Afirmando ser o homem
A extensão do universo
Do verso, reverso
Das ações humanas, inumanas...
Cada um a seu modo.


Dedico ao amigo David de Medeiros Leite, professor, escritor e poeta.


José Lima Dias Júnior — 29.08.2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Lá no sertão


Em noite de lua
Cheia a sala e cozinha
A comida na mesa
Um grito de solidão
Encruzilhada na estrada
Leito seco maculando o coração
Cada instante, um instante
Labaredas riscando os céus
De anelos e canções
As lembranças espalhadas pela casa
A saudade que consome,
Arrebatando o silêncio,
Corre e leva um recado pra ela
A chuva que cai faz brotar
Versos que nascem da janela
Quem passa por lá ver —
Pés descalços correndo
Na direção dos dias
A manhã despenteada
Sorrindo alegra o rio
Os pensamentos sem rumo
Voam na tentativa de te consolar
Os segredos guardados na sombra dos araçás
Passarinhos presos na gaiola
Liberdade de ilusão
Bem te vi pousa no galho
Soltinho na vastidão
Clima seco, hostil a terra
Sangra em brasa o meu sertão.


José Lima Dias Júnior  — 29.08.2013






quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Estado de espírito


 
Entre a loucura e a razão
Havia um homem indesejável, estranho.
Os limites da desordem não lhe permite
Uma consciência completamente possível
Além do bem e do mal.

Capaz de se afazer as manhãs de resguardo
Tendo as estrelas como guia
Bardos cantadores que nos caminhos dos sem-fins
Anunciam com os Magos de Belém a chegada do Deus Menino.
Além das serras e campinas
As vidas sangrentas atingidas pelos balaços e cutelos
As cartas régias solicitam a todos
Que não abandonem a fé tosca e ingênua de seus ancestrais.

Recobertos por curiosos desejos
O tempo sentado a nossa frente
Imprime uma profunda melancolia demasiada etérea
A dura carapaça reforça ainda mais este estado de espírito.

No tempo que não vivi
Abandonou sobre meus ombros
A apreensão angustiante de uma vida inteira
Os impulsos diabólicos soltando berros
Decidiu abandonar o mundo e se refugiaram num monastério distante.



José Lima Dias Júnior  28.08.2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Tétrico espetáculo



Delírio
Enlevação
Inebriante
Êxtase
Embriaguez
Líricas lisérgicas
Corrompidos
Os epítetos insofridos
Ultrapassam a
Atmosfera confinada das fantasias
Vasculhando no infinito
As irrupções ilógicas
Prestes a arrebentar o quebra-mar.

Muralha construída ao natural
Que oferece resistência ao embate das ondas cotidianas
À força das correntes arrastando companheiros meus
Corta-mar, talha-mar... 
Os sonhos e desejos naufragam devido o mar bravio.

Universo afora
Alhures no mundo
Casulo escondido
Numa casca de noz
Um corpo atado
Entregue a orgia
Ajusta-se à condição humana.

À noite encarcerada, sangra
Grita de dor
Vítima da insana madrugada
Afronta perigos
Manifesta socorro
Fazendo correr
Entre os dedos
Cada uma das contas de rosário
Desfia em pranto o sol nascente.



José Lima Dias Júnior  — 27.08.2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nas cores do desatino


 
Por entre às brechas do mundo
Vi a vivência dos homens
Sem nada, entregues
A solidão remoída.

Propus-me a descrever
Aquela vida à margem
Que espiando pela fresta
Vi as práticas abolidas,
Vi a jovem rezando
Uma prece por dia.

O olhar que agora incide,
No elã das almas livres,
Ver figuras abruptas
Que se inscrevem
Na negatividade da existência.

Imediatamente pelo olhar,
Apesar de intransponível,
A vida extrai uma verdade conjurada.

Um rosto descoberto
Aberto para o festim,
As rosas de pétalas cálidas
Enfeitando os querubins.

A vilania rodeando nas margens da consciência
Concede ao homem cotidiano
Um estado de demência.



José Lima Dias Júnior  — 26.08.2013

No pêndulo do tempo


Expostos à luz do dia
surgem em meio à miséria
olhos esquecidos,
olhos imóveis,
olhos vivos,
olhos assustadores,
olhos de dores...
seres cinzentos com olhos fixos no nada
sem costumes, sem palavras,
criaturas mudas, apagadas pela insensatez humana,
exalam o cheiro da embriaguez dominical.


No tempo de sua juventude multicolorida
o sujeito lido retalha
em farrapos a pele miserável
que lhe cobre o corpo.

O alarido dos pássaros quebra o silêncio geral.
as horas frias vivem a melancolia dos dias
que vai e vem no pêndulo do tempo
com cólicas e sem saber gozar a vida.
podemos vê-las arrastando-se como serpentes em solo quente.

Não tendo nada melhor para fazer
as manhãs encolerizadas
pareciam traços atrozes fixos na paisagem
anátemas faz morada no tempo que assiste todos os dias a morte
como o único fim.
A arte parcimoniosa filtra as feições matinais, agitando-se febrilmente
no rosto lívido da vida.


José Lima Dias Júnior  — 25.08.2013

sábado, 24 de agosto de 2013

Paroxismo



O raio risca o céu,
Retrucando monossílabos,
Se esvaziando de espasmos.

O solo ressequido,
Sem apego, quase,
Afoga-se nas águas da chuva.

Afoitamente segue
O curso das correntes marinhas,
Dos lábios mordazes a esperar no cais
A singularidade dos homens decaídos.


José Lima Dias Júnior  — 24.08.2013  

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Processo evolutivo



Do não-mundo,
Do não-sem fim,
Do não-começo,
Do não-fim.

Do não-deixar,
Do não-existir,
Do não-juntos,
Do não-vestir.

Do não-tudo,
Do não-nada,
Do não-fazer
Do não-casa.

Do não-reforma,
Do não-canção,
Do não-útero,
Do não-razão.

Do não-desejo,
Do não-outro,
Do não-eu,
Do não-corpo.

Do não-me-deixes,
Do não-me-esqueças,
Do não-querer,
Que tu me queiras...



José Lima Dias Júnior  —  23.08.2013

Movimento contínuo


O imprevisto visto a sós
Conduz um cadáver em seu interior...
A vida solicitava audiência
Com a morte, para sacudir sua inércia.

Passavam horas obstinadas a prosseguir
A fluidez das linhas insólitas, em
Contornos angulosos pareciam
Curvas, retas, um intervalo,
Um ponto no espaço, um traço
Que representa alteração
Na linha arqueada, na rua
Na estrada, na avenida
Desmedida curvatura
De um movimento contínuo.



José Lima Dias Júnior  —  23.08.2013

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Recortes



Lâmina, corte, rasgo
Largo, profundo que
Sufoca em solidez a alma humana.

Espectro, ternura, desgosto
Diluído, abrandando os sonhos,
Regeneram-se os traços
E os espaços sobrepostos.

Voz poética, imagética,
Transmuta-se em palavras,
Desejos e sentidos
Desnudando "coisas inatingíveis."


José Lima Dias Júnior — 22.08.2013

Fragmentos



Fragmentos, tempo, passatempo
Vento, moinhos, cataventos...
Substratos de nós em cada esquina.

Pedaço, corte, rasgo...
Olhos que lacrimejam um líquido imundo
Desalinho de si mesmo.

Quina, vértice, espaço
Ser, pássaro, gente...
Braços e asas que se abrem ao amanhecer.


José Lima Dias Júnior — 21.08.2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Natureza humana

  



O lírico de si,
vagabundeando
noite afora.
o cuidado do outro,
deserdado da ordem cartesiana
de um vulto que se desloca
através da extraordinária
singularidade seminal
do ventre livre que me pariu.

O tempo aguçado
incorpora a torpeza
das manhãs revestidas
de uma mordaz dessublimação
onde a alma
em sua intrincada perversão
circunscreve o espaço que há em si.

Assentada no edifício dantesco,
de sua Própria “divina comédia”,
a natureza humana
paira sobre as pessoas e as coisas,
 esparsa e obscura,
onde essa metade de si
que recusa a prosseguir por entre
a submissão falsificada
dos cânticos que os poetas lhes dedica
removeria o Mal supremo e
edificava a alegoria de metáforas orgânicas
com retratos debilitados pela miséria.



José Lima Dias Júnior  —  19.08.2013

Afetos mal-ditos


 
O indizível petrifica
e torna estático
o que Há em nós.

Não é fácil se livrar
dos afetos mal-ditos
que, sorrateiramente,
travestidos de candura
insiste em nos deter.

Arvora-se um Ser (In) previsível
que vive para o desejo e
suas múltiplas manifestações
acenam para um corpo
desejante e desejado.

desejo tácito que
enquadra-se no
pensamento primitivo
dos impactos engendrados
para cumprir a produção da espécie.

A cartografia do desejo reconstrói
a irrefletida desconstrução do real
onde os afetos válidos, candentes de anelos,
interiorizam-se pela realidade
que pintaste com as cores do imaginário.

Na subjetividade do homem
esconde-se o medo,
suprime o desejo
para não ser enquadrado
pelo julgamento da moral.
apartados de suas intensidades
e propósitos, corpo e alma,
estabelecem um diálogo
sem serem enxergados.

Não há espaço nem vicissitudes
Que normalize a dimensão fugaz
Do fluxo permanente que há nós.

É justamente esse horizonte
que nos atravessa a aparência
explícita do lugar... Devotos
enredam-se aos tormentos,
inocentes e cruéis, que criaram.



José Lima Dias Júnior  — 19.08.2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Insólito silêncio


Seres estranhos
mudam de lugar
um cadáver, 
um homem...
em Seu interior, a vida
observa com pavor
a inércia de sua força viva.

Sob um céu sem nuvens
a alma mergulha sem descanso,
evocando um silêncio insólito,
traduzindo em contornos angulosos
o desejo de tê-las num só canto
as açucenas em flor
filhas da mesma manhã.

José Lima Dias Júnior — 19.08.2013

domingo, 18 de agosto de 2013

Minha loucura...


Observando todos os aspectos permanentes da loucura, coagi as manhãs. Que preso a uma incessante verdade móvel busquei no espaço dos dias a liberdade que se aliena.

Apenas os loucos podem de fato fundir arte-vida ao labirinto interior e de se manter amarrados a si mesmos. A forma concreta que prende e torna-se absoluta e punitiva na fronteira de um mundo dissonante demora a devolvê-los à sociedade.

Violentos foram os movimentos feitos pelo desatino que em rodopio me reduziu ao silêncio. A admissão dos insensatos, entre a liberdade e seus limites, claramente assinalados pela experiência asilar constitui uma ilusão ao olhar neutro dos agitados que seguem na solução das esperas.

A vida inquieta na docilidade das tardes, exposta ao sol, nada se criou. E tateando desajeitado segui na direção do êxtase para exorcizar as falas que constituem a alegria dos homens.

Num espaço vazio a loucura assume valores simbólicos de um inferno meticuloso não reservado para o mal, mas um lugar onde as dores não estão obrigadas a entrar.

Ao adormecer embalado pelos sons melancólicos, o homem sente morrer o entusiasmo e a imaginação daqueles que a contemplam. Um intervalo lúcido filtra tudo àquilo que não serve mais. Figuras reais que zelam pela extensão do tempo e pela multiplicidade das existências delirantes estão todas distantes de nós.


José Lima Dias Júnior  —  18.08.2013



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Padecer

Pintura de Salvador Dali


Com os olhos erguidos na direção do céu questiona seu intenso padecer. No rosto exprime-se a pobreza adicionada pelo tempo incapaz de compreendê-lo. Crises de depressão preenchem os imensos vazios da alma melancólica em busca da felicidade.

Dos céus vieram à ordem de rezar um rosário de penas para extrair do seu interior o arrependimento. Os muros e fossos que construiu, com duras pedras de lamentos, a sua volta não resistiram à iniquidade. O corpo pulsante de dor é entorpecido pelo êxtase das manhãs... Asfixiado pelos tormentos do existir sucumbe diante da presença de um ser iluminado.


José Lima Dias Júnior  — 16.08.2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Sofrimento esquálido



Nefasto destino que percorre veredas secundárias encobrindo de adornos a vida. Desmesurada manhã, cujo pensamento abstrato e ancorado na razão, reflete o dramático cotidiano do homem em face de seu destino.

À experiência singular de vidas envolvidas com uma forma obscura vivem a obrigação moral que a sociedade lhes reserva. Por um instante, se distanciam da realidade para recriar o tempo que perderam.

Pálido amanhecer que legasse a tarde uma noite sombria tacitamente aceita por todos. Um embate de um eu contra si mesmo tem como substrato o desassossego interior, a eliminação psicológica e física da alma humana.

Ó Saturno, ampara as almas melancólicas esculpidas pela tradição trágica do pensamento ocidental. Exorciza demônios e espíritos malignos que fazem doer o corpo insano e afastam do perigo e do medo que são inerentes ao viver.

A morte anunciada desde o nascimento atormenta os transeuntes desta nau a deriva. Abandonando a si mesma no decorrer da existência preferiu não deixar o corpo intacto adormecendo na eternidade das reticências poéticas.

Deixando o corpo, a alma triste deixa um recado póstumo:

— Despejarei pela boca as ideias de ontem e darei vozes às palavras indigestas!



José Lima Dias Júnior — 15.08.2013.